Os investidores até estavam preparados para voltar a lidar com ameaças à independência do Fed, mas esperavam que essa pauta só voltasse aos holofotes na semana que vem, quando está prevista a audiência da diretora Lisa Cook na Suprema Corte dos EUA. A ação do DoJ, contudo, antecipou as discussões e trouxe, ainda que de forma tímida, o “trade” “sell America” de volta.
A busca por proteção na manhã desta segunda-feira é evidente, com um salto dos preços do ouro e da prata; alta firme das taxas de longo prazo; e queda do dólar frente a outras moedas fortes, como o euro e o franco suíço.
Em resumo: a venda de ativos americanos deu as caras de novo. Claro, ela pode ter vida curta, mas a reação inicial dos mercados já mostra que há uma atenção particular à independência do Fed e reforça a percepção de que o ouro tem sido visto como o principal “hedge” dos mercados para quaisquer riscos que apareçam pela frente.
A reação do próprio banco central, desta vez, foi o fator que mais chamou a atenção dos agentes.
Ao gravar um vídeo no fim de semana onde avalia que a ameaça de uma investigação criminal se deve ao fato de o Fed “definir as taxas de juros com base em nossa melhor avaliação do que atende ao interesse público, em vez de seguir as preferências do presidente”, Powell ajudou a dar a dimensão de que a ação do DoJ se trata, de fato, de um passo além na tentativa de minar a independência do banco central americano.
“É o primeiro momento em que Powell confronta Trump abertamente sobre a independência do Fed”, observa o economista Atakan Bakiskan, do Berenberg. “Um Fed mais alinhado à política pode levar a uma inflação mais alta por mais tempo, possivelmente a taxas reais negativas no curto prazo da curva, a custos de financiamento elevados no longo prazo e a um dólar mais fraco.”
Bakiskan nota que a declaração de Powell mostra que o dirigente “não está disposto a recuar”. O economista, porém, lembra que Powell só permanecerá no comando do Fed até maio.
Mesmo diante das ameaças ao Fed, o economista observa que o nível do “term premium” (prêmio de termo, a compensação exigida pelos investidores para deter títulos de prazo mais longo) da taxa da T-note de dez anos está praticamente inalterado desde o início do ano e segue “relativamente baixo” pelos padrões históricos.
“Na nossa avaliação, o mercado pode estar complacente demais. Se o Fed adotar uma política monetária ultraexpansionista, apesar de uma inflação mais elevada, o resultado pode se assemelhar ao dos anos 1970 em um cenário de risco extremo”, diz.
“Além disso, se o Fed passar a agir guiado pela política, e não pelos dados, investidores estrangeiros podem reduzir o financiamento da dívida dos EUA e buscar novos ativos de proteção”, enfatiza Bakiskan. O ouro, já bem acima de US$ 4,5 mil, é um dos sinais mais claros disso.
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