Uma colônia de formigas-cortadeiras, conhecidas como saúvas, está longe de ser formada apenas por insetos. Dentro dos formigueiros existe um verdadeiro ecossistema, com fungos, bactérias e uma série de interações que ainda estão sendo desvendadas pela ciência. Um novo estudo realizado por pesquisadores da Unesp e da USP mostrou que a alimentação das formigas influencia diretamente esse ambiente interno.
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A pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), analisou como as bactérias presentes nas colônias reagem às diferentes dietas oferecidas pelas formigas ao fungo que elas cultivam para se alimentar.
O trabalho foi publicado em revista científica internacional e ajuda a entender melhor o funcionamento dos formigueiros, além de abrir caminhos para a descoberta de novas substâncias com potencial uso biotecnológico.
O que as formigas comem muda tudo
As formigas-cortadeiras são conhecidas por cortar folhas e levá-las para dentro da colônia, onde cultivam um fungo. Esse fungo transforma o material vegetal em alimento para as próprias formigas. O que os pesquisadores quiseram saber foi: o que acontece quando essa dieta muda?
Para responder à pergunta, os cientistas acompanharam 28 colônias de saúva-limão (Atta sexdens) mantidas em laboratório por quase dois meses. As colônias foram divididas em quatro grupos, cada um com um tipo de alimentação diferente.
Um grupo recebeu apenas folhas, reproduzindo a dieta natural. Outro recebeu frutas e cereais, como banana, mamão, maçã, aveia e arroz. Um terceiro grupo teve uma dieta variada, alternando folhas, frutas e cereais. Já o último grupo começou com folhas, passou um período com frutas e cereais e, depois, voltou à alimentação original.
Os resultados chamaram a atenção. Nas colônias alimentadas apenas com frutas e cereais, o fungo parou de crescer e deixou de produzir alimento para as formigas. Isso indica que tanto o fungo quanto as bactérias associadas a ele são adaptados a digerir fibras mais complexas, presentes principalmente nas folhas.
“Assim como acontece no intestino humano, a microbiota das colônias responde à dieta e pode até voltar ao padrão original quando a alimentação anterior é retomada”, explica a pesquisadora Mariana de Oliveira Barcoto, primeira autora do estudo.
Um ecossistema organizado em camadas
A pesquisa também ajudou a mapear como esse ecossistema funciona dentro do formigueiro. Na parte superior, ficam as folhas recém-coletadas, onde há poucos microrganismos. À medida que o material vegetal vai sendo degradado, a presença de fungos e bactérias aumenta, formando regiões mais ricas em nutrientes.
Já no fundo do jardim do fungo ficam os restos menos aproveitados, que acabam sendo removidos pelas formigas e levados para uma área separada, a chamada “pilha de lixo”. Mesmo ali, a atividade microbiana continua intensa.
Lixo que pode virar solução
Segundo os pesquisadores, esse material descartado pelas formigas tem grande potencial para aplicações futuras. As bactérias presentes no lixo do formigueiro produzem enzimas capazes de degradar fibras vegetais complexas, como a lignocelulose.
“Esses microrganismos podem ser promissores para pesquisas em áreas como biocombustíveis e biorremediação”, afirma Barcoto.
O estudo também abre espaço para novas investigações, avaliando como mudanças de temperatura, umidade ou até o clima podem afetar esses ecossistemas complexos. Para os cientistas, entender como pequenos ajustes alteram o funcionamento das colônias ajuda a prever impactos ambientais mais amplos.
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