Sinop, 26/01/2026 00:02

Mato Grosso e o desafio da hanseníase

Estado mais atingido pela hanseníase, Mato Grosso é hiperendêmico e tem o maior número de casos da doença no Brasil. A Secretaria de Estado de Saúde (SES) revela com números parciais apurados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde, que em 2025 foram notificados 4.276 novos casos, com 5.336 pacientes em tratamento. Em 2024 a hanseníase provocou cinco mortes de mato-grossenses. Para conscientizar a população e os governos, o jornalista e ativista francês Raoul Follereau sugeriu a criação do Dia Mundial de Combate à Hanseníase, e a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1954 o oficializou. A data é móvel e celebrada no último domingo de janeiro, à qual se junta a campanha Janeiro Roxo.

Os números mato-grossenses são preocupantes e a eles somam-se 74 casos de hanseníase em territórios indígenas no ano de 2024. Porém, as autoridades não informam sobre a etnia e o aldeamento dos pacientes. Há décadas o governo tenta reduzi-los, em vão. É uma luta permanente num esforço sem resultado, como se fosse um enxugar gelo. Isso, segundo analistas, por conta de alguns fatores. A hanseníase é considerada uma doença com raízes sociais e cercada de estigma, desde quando era chamada de lepra. Nenhum dos estados desenvolvidos figura entre os mais atingidos. Após Mato Grosso, em ordem decrescente e tomando 2025 por base, o Maranhão é o segundo, com 1.758 casos; e na sequência, Bahia, com 1.748; Pará, com 1.489; e Pernambuco, com 1.453. Seus números quase sempre são mascarados ou subnotificados, não por falta estatística da Saúde Pública, mas por conta dos próprios contaminados, que buscam tratamento fora de seus municípios e até mesmo do Estado, pelo estigma da doença.

No plano internacional, o Brasil é preocupante vexame, com 22.129 novos casos em 2024. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)naquele ano foram notificados 172.717 casos no mundo. A Índia lidera o ranking com 100.957 e a Indonésia é o terceiro, com 14.698.

Em 1995, o então secretário estadual de Saúde, o médico sanitarista Júlio Müller Neto, lançou um programa ousado para erradicar a hanseníase em Mato Grosso, mas sua meta não foi alcançada. À época havia um fluxo migratório muito intenso para todas as regiões e a estrutura da saúde pública era limitada, com municípios permanecendo de costas para Cuiabá; nem mesmo na Capital o programa foi consolidado, pois o município registrava uma alta taxa de crescimento, em sua maioria desordenado, pelas invasões urbanas, que resultaram no surgimento de bairros, por cidadãos que eram invisíveis para o Estado.

O tratamento é gratuito e o diagnóstico é dado pelos postos de saúde, mas a principal referência de atendimento é o Centro Estadual de Referência em Média e Alta Complexidade (Cermac), da SES, em Cuiabá. Além do Cermat há os Ambulatórios de Atenção Especializada Regionalizados (AAER), em Tangará da Serra, Juína, Várzea Grande, Juara, Barra do Garças e Alta Floresta, e o Hospital Regional de Colíder.

Segundo a coordenadora da Vigilância Epidemiológica da SES, Janaina Pauli, a SES participa do Projeto de Intervenção Diagnóstica em municípios com elevados índices de falha terapêutica da Poliquimioterapia da Hanseníase, do Instituto Lauro de Souza Lima em parceria com o Ministério da Saúde.

Em 2025 a doença foi detectada em 129 municípios mato-grossenses, sem que o Ministério da Saúde apresentasse o quadro em Boa Esperança do Norte, que foi instalado naquele ano. Os municípios com maior número de novos casos foram: Cuiabá, com 607; Colniza, com 315; Juína, com 241; Confresa, com 221; Várzea Grande, com 207; Sinop, com 196; Pontes e Lacerda, com 170; Castanheira, com 150; Canabrava do Norte, com 120; Sorriso, com 115 e Tangará da Serra, com 100. O quadro hiperendêmico é capilarizado e atinge grandes, médios e pequenos municípios em todas as regiões. A doença somente não foi diagnosticada em Vale de São Domingos, Bom Jesus do Araguaia, Santo Antônio de Leverger, Araguaiana, Dom Aquino, Araguainha, Novo Horizonte do Norte, Planalto da Serra, Luciara, São José do Povo, Porto Estrela e Santo Antônio do Leste, todos pequenos e dispersos nas diversas regiões.

CARACTERÍSTICA – A hanseníase é uma doença que pode permanecer invisível até por 10 anos, pois seu agente causador, o bacilo Mycobacterium leprae, tem um longo período de incubação. Daí ela é chamada de ‘invisível’ e silenciosa em seu estágio inicial. Porém, na maioria dos casos demora de dois a cinco anos, em geral, para aparecerem os primeiros sintomas.

HANSENÍASE – Com citações bíblicas no Velho e no Novo Testamento, a hanseníase anteriormente era chamada de lepra e seus portadores eram confinados em leprosários ou lazaretos, de triste memória. A denominação hanseníase deve-se ao descobridor do microrganismo causador da doença, Gerhard Hansen. O termo lepra caiu em desuso por sua conotação negativa histórica.

Em suma, trata-se de uma doença infecciosa e contagiosa que passa de uma pessoa doente, que não esteja em tratamento, para outra. Ela pode atingir crianças, adultos e idosos de todas as classes sociais, desde que tenham um contato intenso e prolongado com o bacilo. O portador de hanseníase apresenta sinais e sintomas dermatológicos e neurológicos que facilitam o diagnóstico.

MATO GROSSO – De janeiro a novembro de 2025, o Cermac realizou 1.814 atendimentos relacionados à hanseníase em 778 pacientes. Foram 807 consultas médicas especializadas, 768 atendimentos com equipes multiprofissionais e 239 procedimentos diagnósticos e terapêuticos.

A equipe possui hansenólogos, assistentes sociais, farmacêuticos, enfermeiros, nutricionistas, ortopedista, dermatologista, fisioterapeuta e psicóloga.

HISTÓRICO – Mato Grosso tem longo histórico de hanseníase. No passado, quando a doença era chamada de lepra, ela era muito estigmatizada. Os portadores do mal de Hansen eram isolados e mantidos em lazaretos. Em Cuiabá entrou em funcionamento em 25 de abril de 1816, a Casa Pia São Lázaro, que mais tarde seria o Hospital São João dos Lázaros, desativado em 1941 com a construção da Colônia de Leprosos São Julião, em Campo Grande, e para onde os portadores da doença que residiam em Mato Grosso eram encaminhados numa viagem sem volta. À época Campo Grande era município mato-grossense.

Em 1979 a ONG Associação Alemã de Assistência aos Hansenianos (DAHW na sigla em alemão) passou a atuar em Mato Grosso. Quatro anos depois, a Dahw assinou convênio com a SES para a construção do Centro de Dermatologia de Rondonópolis e doou US$ 40 mil para a obra daquela unidade. O Centro foi inaugurado no dia 12 de novembro daquele ano. Rondonópolis tinha alta taxa da doença e o mesmo acontecia com os municípios em seu entorno. Naquela cidade, sob a direção do enfermeiro alemão Manfred Göbel, a DAHW realizou campanhas de conscientização e deu assistência médica a milhares de portadores.

SINTOMAS – Os principais sintomas da hanseníase são manchas brancas, vermelhas ou acastanhadas na pele com perda ou redução da sensibilidade ao calor, dor ou toque. Ela também causa, sobretudo nos pés e mãos, sensação de formigamento, fisgada ou dormência, diminuição de pelos e suor, além de caroços dolorosos e inchaço nas articulações.

Hansenologistas e dermatologistas, no entanto, observam que os sinais também podem ser alertas para outras doenças. Porém, quando os mesmos acontecem, a recomendação é procurar de imediato o posto de saúde mais próximo.

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