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Inteligência artificial e a reprogramação do afeto e vínculos humanos

Nós, humanos, somos naturalmente sociáveis, além de ávidos por afetos e validações. Neste cenário, a inteligência artificial surge como presença disponível, acessível, constante e aparentemente empática. Essa tecnologia é percebida como capaz de oferecer escuta imediata em um mundo que acelera e rarefaz o tempo do encontro humano.         

A IA ocupa frestas emocionais deixadas por rotinas exaustivas, relações fragmentadas e sistemas de cuidado insuficientes. Ao responder sem cansaço, julgamento ou pressa, torna-se uma companhia digital. Uma parceria amistosa e afetiva que aciona mecanismos profundos de reconhecimento e pertencimento, ainda que de forma assimétrica. É um deslocamento que altera a dinâmica do afeto contemporâneo.        

O vínculo passa a incluir entidades técnicas que confortam, organizam pensamentos e reduzem a sensação de abandono. A potência desse fenômeno reside justamente aí. Ao mesmo tempo em que amplia o acesso ao acolhimento, exige maturidade coletiva para distinguir apoio emocional de substituição relacional e para preservar o valor insubstituível da presença humana consciente.        

A companhia digital mediada por inteligência artificial não ocupa o lugar de ninguém. Ela abre um novo plano de relacionamento afetivo. Um terceiro espaço. Um código híbrido de afeto, em que vínculos com humanos e laços com sistemas convivem e se influenciam. A grande questão já deixou de ser se isso é desejável.         
 

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A pergunta passa a ser em quais condições essa companhia digital por meio de IA amplia o cuidado psíquico e em quais cenários empurra pessoas vulneráveis para um para um isolamento emocional profundo.

O pano de fundo é brutal. Relatório recente da Organização Mundial da Saúde estima que mais de 1 bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental e que depressão e ansiedade geram perdas de produtividade de cerca de 1 trilhão de dólares por ano no mundo, apenas em salários e produção desperdiçados.         

Essa escala global se manifesta de forma ainda mais intensa no Brasil. Pesquisas indicam que cerca de 56 milhões de brasileiros, o equivalente a quase 27% da população, convivem com algum grau de transtorno de ansiedade.        

Nesse contexto aparecem as companhias digitais de IA. Aplicativos conversacionais, assistentes generativos, avatares terapêuticos. Alguns atuam de forma declarada como ferramentas de apoio emocional. Outros se instalam na vida cotidiana como assistentes de produtividade ou entretenimento e, aos poucos, viram confidentes, diários íntimos, espelhos de angústias.         

Pessoas conversam com esses sistemas em horários improváveis, em anonimato relativo, sem receio de julgamento, sem custo por sessão. A promessa seduz principalmente quem se sente excluído da terapia tradicional por preço, conveniência ou estigma.        

A ciência já começa a medir o impacto dessa companhia digital intermediada por IA. Pesquisadores de Dartmouth College nos EUA conduziram o primeiro ensaio clínico com um chatbot terapêutico generativo, o Therabot, junto a 106 pessoas diagnosticadas com depressão maior, transtorno de ansiedade generalizada ou risco de transtorno alimentar.    

 

O uso de chatbots terapêuticos, pode reduzir sintomas de solidão e isolamento, mas não substitui a ajuda médica profissional. (Fonte: Getty Images)

     
Após oito semanas, o grupo que usou o sistema registrou redução média de 51% nos sintomas de depressão, 31% nos sintomas de ansiedade e 19% em preocupações ligadas à imagem corporal, com resultados comparáveis aos de terapia ambulatorial tradicional, segundo o relatório do estudo, divulgado em 2025 pela universidade.         

Parte significativa dos participantes sequer estava em tratamento prévio. Em muitos casos, a companhia digital de IA entrega alívio clínico real onde antes existia apenas vazio.        

Ao mesmo tempo, o uso massivo de ferramentas genéricas de IA para desabafo emocional expõe um terreno de riscos pouco visíveis. Estimativas da própria OpenAI sobre a base semanal de usuários de ChatGPT apontam que cerca de 0,07% dos usuários ativos exibem sinais possíveis de emergências de saúde mental ligadas a psicose ou mania, enquanto 0,15% têm conversas com indicadores explícitos de planejamento ou intenção suicida.         

Outros 0,15% demonstram forte apego emocional ao chatbot, em detrimento de vínculos e responsabilidades do mundo real. Com cerca de 800 milhões de usuários ativos por semana, esses percentuais representam, em cada sete dias, algo em torno de 560 mil pessoas em possível crise de psicose, mais de 1,2 milhão com indícios de planejamento suicida e outro 1,2 milhão com dependência afetiva preocupante.        
 

Essa convergência entre benefício clínico e risco extremo revela a natureza ambivalente da companhia digital por meio de IA. Os mesmos mecanismos que permitem acolhimento contínuo também abrem espaço para vínculos excessivos, ilusões de reciprocidade e decisões perigosas.   

O problema não reside na ideia de conversar com um sistema de IA, mas na ausência de enquadramento ético, técnico e educativo para esse tipo de vínculo. Urge o letramento digital em IA, principalmente para as pessoas que usam a tecnologia em prol da saúde mental.        

Chatbots terapêuticos supervisionados podem ampliar o alcance da clínica para regiões remotas e para pessoas sem disponibilidade de horário. Assistentes de IA ajudam a monitorar padrões de sono, humor e uso de substâncias, com consentimento informado, e devolvem esses dados ao profissional responsável.         
 

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É importante que a IA seja vista como uma aliada e não uma substituta para relações afetivas reais. (Fonte: Getty Images)

Ferramentas de apoio emocional podem reduzir a solidão em momentos de crise, desde que apresentem, de forma insistente, caminhos para contato com amigos, familiares e serviços de acolhimento humano.        

Ao mesmo tempo, uma sociedade que naturaliza a ideia de “melhor amigo digital” ou “parceiro perfeito de IA” sem qualquer crítica entra em terreno perigoso. Ligações afetivas assimétricas com sistemas treinados para agradar criam ilusão de controle e atrito mínimo, mas empobrecem a experiência de alteridade. Relações humanas exigem frustração, conflito, negociação.         

Esse atrito constrói maturidade psíquica. Uma companhia digital intermedia por IA é incapaz de impor limites reais e oferece um simulacro de intimidade que conforta hoje, mas fragiliza amanhã.        
 

O futuro afetivo em países como o Brasil, portanto, não se define por um duelo entre terapia humana e companhia digital de IA. O que se desenha é uma arquitetura relacional em que humanos e inteligência artificial compõem o mesmo mosaico de cuidado. 

Em um país exausto, desigual e hiperconectado, a IA tende a ocupar cada vez mais espaço na gestão cotidiana das emoções. A decisão crítica recai sobre como orientar esse movimento. Se o país abraçar regulação responsável, supervisão clínica e letramento digital amplo, a companhia digital com IA poderá aliviar sofrimento real, especialmente entre quem sempre viveu fora do consultório.        

Se preferir a combinação de euforia tecnológica com abandono regulatório, esse mesmo recurso ampliará dependências silenciosas e aprofundará o adoecimento psíquico coletivo.        

A escolha se apresenta com nitidez. Companhias digitais de IA já fazem parte do código afetivo brasileiro. A responsabilidade histórica consiste em transformar esse código em um pacto híbrido de cuidado, em que a tecnologia reforça vínculos humanos em vez de tentar substituí-los.

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