Uma obra da Prefeitura de São Paulo na rua Amaral Gurgel, sob o Elevado Presidente João Goulart, popularmente conhecido como Minhocão, no centro da cidade, trouxe à tona achados arqueológicos que remetem ao século passado.
Trata-se de trilhos de bonde pertencentes às linhas da companhia Light, implantadas a partir de 1900, localizado no Triângulo Histórico de São Paulo.
O Metrópoles teve acesso às imagens dos achados em primeira mão. Veja:


Trilhos da antiga companhia Light foram achados por pesquisador “por acaso”
Matheus Lima/Cedido ao Metrópoles

O bonde elétrico da Light circulava pela capital paulista no início do século passado, e tinha mais de 160 km de rede
Matheus Lima/Cedido ao Metrópoles

Este era um dos principais meios de transporte na década de 1930
Matheus Lima/Cedido ao Metrópoles

Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo acompanham o caso
Matheus Lima/Cedido ao Metrópoles

Prefeitura informou que processo está em fase de análise técnica e que obras foram concluídas
Matheus Lima/Cedido ao Metrópoles
Pesquisador encontrou trilhos por acaso
Mesmo que as obras estivessem sendo realizadas pela Subprefeitura da Sé, que instalou jardins de chuva no local, foi um morador da Santa Cecília, próximo ao Minhocão, quem percebeu os trilhos abaixo do solo.
O pesquisador Matheus Lima, de 32 anos, estava caminhando sob o Elevado, na altura da Praça Marechal Deodoro, em 15 de janeiro, quando observou objetos soterrados em meio às escavações.
Ao se aproximar, percebeu que se tratava de trilhos de bonde. Segundo ele, “o achado foi uma surpresa”.
“Eu sabia da existência da linha de bondes da Lapa, cujo itinerário incluía a Avenida São João e Praça Marechal Deodoro, mas custei acreditar que, mesmo após décadas de transformações na área, sobretudo com a construção do Minhocão, nos anos 70, ainda poderia existir vestígios da linha de bonde”, explicou.
O pesquisador tirou fotos dos achados (veja acima) e pesquisou em mapas históricos para confirmar a existência dos antigos caminhos de bonde no local. Em seguida, ele enviou solicitação à prefeitura, pedindo embargo da obra.
Iphan e DPH acompanham
A partir da notificação, o caso passou a ser acompanhado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Em ofício enviado à Subprefeitura da Sé e à Secretaria Municipal de Cultura (SMC), em 18 de janeiro, o órgão solicitou a paralisação imediata da obra e a contratação de profissional arqueólogo idôneo para apresentar um projeto de acompanhamento arqueológico.
O Iphan pediu ainda que a Prefeitura de São Paulo informe a data de início, a natureza e o objetivo da obra, além de enviar o projeto de engenharia da modificação, com detalhamento sobre a profundidade a ser alcançada e o cronograma de execução.
“Não era necessário processo de licenciamento ambiental junto ao instituto para a obra em questão. No entanto, os trilhos de bonde caracterizam achado arqueológico. Uma vez identificado, o Iphan deve ser formalmente notificado para orientar sua gestão e preservação”, esclareceu o órgão.
Em resposta ao ofício, em 13 de fevereiro, o Centro de Arqueologia de São Paulo, do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), confirmou que os achados arqueológicos são trilhos remanescentes da antiga malha de bondes elétricos da Light.
Mesmo com registros dos achados, o DPH afirmou ainda que a área objeto das obras não é reconhecida como de interesse arqueológico – o termo criado foi pela administração municipal por meio de resoluções próprias, destacou o Iphan.
“Sendo assim, entende-se que a obra não pode ser caracterizada como desvio do processo de licenciamento”, disse o DPH ao órgão federal.
Apesar disso, o departamento também ordenou a interrupção das obras e a comunicação ao Iphan, bem como atualizações ao Centro de Arqueologia.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que a obra já foi finalizada e que o processo, acompanhado pelo DPH, está em fase de análise técnica.
Bonde da Light
O bonde elétrico da Light circulava pela capital paulista, no início do século passado, e tinha mais de 160 km de rede. Este era um dos principais meios de transporte na década de 1930.
“Essa malha interligada atendia desde bairros operários em expansão a áreas aristocráticas. Em 1946, a Light sai de cena e é substituída pela Companhia Municipal de Transportes Coletivos, a CMTC. O bonde foi uma solução para a mobilidade urbana numa cidade que crescia vertiginosamente”, explicou o pesquisador.
O pesquisador lembra que o modal foi substituído pela política rodoviarista do Plano de Avenidas de Prestes Maia, o que levou ao fim do bonde em 1968.
O Elevado foi inaugurado pouco depois, em 1971, com o nome de Costa e Silva, o segundo presidente do Brasil durante o regime militar. Em 2016, a via teve o nome alterado para outro mandatário, o presidente João Goulart, deposto pelo golpe militar de 1964.
Achados arqueológicos “podem desaparecer facilmente”
Matheus denunciou às autoridades ter encontrado os trilhos remanescentes da Light na tentativa de preservar os vestígios arqueológicos. Ele destaca que esses achados “são muito frágeis e podem desaparecer facilmente em obras sem acompanhamento de profissionais especializados”.
O pesquisador ressaltou ainda que a resposta do DPH “demorou muito” – ele protocolou a denúncia em 15 de janeiro, e só teve resposta em 11 de fevereiro. “Se tratando de patrimônio arqueológico em risco, esse tempo é uma eternidade e pode custar o desaparecimento de um pedaço importante de nossa história”, apontou.
Ele denuncia também que, apesar do ofício do Iphan, a prefeitura seguiu com a obra por mais alguns dias até ser concluída.
“Na minha opinião, a obra deveria ser desfeita e os trilhos catalogados, retirados para restauração e reinstalados no local, com devida sinalização informativa sobre o sítio arqueológico recém descoberto. A história da linha de bonde também deveria ser sinalizada no local por meio de placa do programa Inventário Memória Paulistana”, sugere.
Matheus lembrou de outra peça desse quebra-cabeça, e consequentemente da história de São Paulo: a antiga garagem de bondes da Alameda Glete, onde hoje se encontra o 77° Distrito Policial (Santa Cecília) e uma subestação da Enel.
“A preservação do achado arqueológico ajudará a contar a história dos transporte na zona oeste da cidade”, afirmou.