Há um cansaço que a gente não fala em voz alta. É o cansaço que precisar ser aceito, de medir cada gesto, cada palavra, cada roupa e até a forma de amar, esperando que o outro nos autorize a existir. Esse fardo é familiar demais para quem vive na pele o que é ser parte da comunidade LGBT+.
Desde cedo, aprendemos que para sermos “tolerados”, precisamos caber em moldes, já definido. O menino afeminado é ensinado a disfarçar o tom de voz e segurar o rebolado. A menina lésbica é aconselhada a “não se vestir tão masculina”. A pessoa trans precisa justificar, todos os dias, a própria identidade, até para ter o direito de ser chamada pelo nome que escolheu. E assim vamos, adaptando o corpo e o comportamento para não incomodar quem nunca se preocupou em nos compreender, nem que seja 1%.
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O problema é que essa busca pela aprovação vira uma armadilha silenciosa. Queremos tanto ser aceitos que, às vezes, esquecemos de ser nós mesmos. Viramos versões editadas do que somos, o gay “discreto”, a travesti “educada”, a bissexual “que ainda gosta de homem”. Tudo para caber num padrão que nunca foi feito para nos acolher.
A validação social é um vício difícil de largar. Ela nos dá uma falsa sensação de pertencimento, como se fosse um emprego, onde podemos “ser quem somos”, desde que sem exageros; uma família que “aceita”, desde que não se fale muito sobre o assunto; uma sociedade que “respeita”, desde que a gente não incomode demais. É o famoso “pode ser quem você é, mas sem mostrar tanto”.
E quando crescemos ouvindo que o amor que sentimos é “errado”, que nossa forma de existir é “exagerada” ou “política demais”, acabamos internalizando a ideia de que precisamos pedir desculpas por existir.
É cruel, mas é real: ainda hoje, em 2025, há pessoas LGBT+ que se esforçam para merecer o direito de simplesmente estar.
Mas quem disse que precisamos ser validados?
Quem disse que nossa felicidade depende da aprovação alheia?
O problema não está em querer ser amado, reconhecido ou respeitado, isso é humano. O que nos adoece é condicionar o valor da nossa existência ao olhar dos outros. Quando a nossa autoestima depende da aceitação de quem não entende o que é viver fora da norma, ficamos reféns de um sistema que nos rejeita por padrão.
A comunidade LGBT+ sempre foi forjada na resistência. Nossa história é feita de gente que ousou viver fora das margens, mesmo quando isso significava risco, dor ou solidão. Gente que entendeu que o orgulho não é sobre se achar melhor que ninguém, mas sobre não se envergonhar de ser quem é, mesmo que ninguém aplauda.
Precisamos resgatar essa autonomia emocional.
Precisamos nos lembrar de que a validação mais importante não vem de fora, vem de dentro.
Não há aprovação mais poderosa do que a que damos a nós mesmos quando olhamos no espelho e dizemos: “Eu existo, e isso basta.”
É claro que não é simples. Vivemos em um mundo que premia a conformidade e pune a diferença. Um mundo em que a diversidade ainda é usada como vitrine, não como valor. Mas é justamente por isso que precisamos reafirmar, todos os dias, que nossa identidade não é um pedido de desculpas, é uma declaração de liberdade.
A validação externa pode até ser um alívio momentâneo. Mas ela é instável, volúvel, superficial.
A autovalidação, por outro lado, é revolucionária. É o ato político mais íntimo que existe.
Quando uma pessoa LGBT+ decide se aceitar, mesmo sem o aplauso do mundo, ela rompe com séculos de silenciamento.
Não é fácil, mas é libertador.
Afinal, o amor-próprio não é ego, é sobrevivência.
LUCAS LEITE é jornalista, assessor de imprensa e social mídia
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