Sinop, 25/01/2026 20:31

China, EUA e o orçamento interno: por que 2026 exige cautela do agro brasileiro

Foto: Pixabay/Montagem: Canal Rural

O agronegócio brasileiro começa 2026 com desafios já conhecidos e novas oportunidades. O ano de 2025 foi marcado por grandes adversidades, como a gripe aviária, o “tarifaço” dos Estados Unidos e intempéries climáticas.

Recentemente, a China anunciou uma sobretaxa de 55% para as exportações de carne bovina que excedam a cota de 1,106 milhões de toneladas, e, para o Brasil, isso significa que os produtos que ultrapassarem essa marca estarão sujeitos a uma tarifa de 67%. Apenas como referência, no ano passado, nossas exportações chegaram a 1,5 milhões de toneladas para o país asiático.

O Brasil tem apostado fortemente no multilateralismo, o que foi fundamental para mitigar o impacto do tarifaço imposto pelos EUA. No entanto, nossa dependência do mercado chinês é alarmante: a China representa 30% dos destinos das nossas exportações e, no caso da carne bovina, esse percentual salta para quase 50%. Portanto, qualquer mudança no cenário chinês pode gerar um “tsunami” de consequências negativas para a nossa economia.

O início de 2026 também é marcado por tensões geopolíticas, como a intervenção dos EUA na Venezuela, que podem influenciar diretamente o preço do petróleo e, consequentemente, os custos de produção. A volatilidade do cenário internacional se intensificou em 2025, principalmente devido ao tarifaço americano.

Com uma taxa Selic de 15% ao ano, um orçamento comprometido por despesas obrigatórias, como previdência e salários do funcionalismo público, e um ano eleitoral à vista, o espaço para imprevistos se torna praticamente inexistente.

Diante desse contexto, é crucial que busquemos manter a estabilidade interna para garantir um ambiente propício a investimentos. No Congresso Nacional, debates em torno de temas como o fim da jornada de trabalho (6×1) e medidas de arrecadação fiscal já estão em pauta e podem suscitar novos desafios para o agronegócio.

Em um passado recente, o governo cogitou a imposição de uma alíquota de Imposto de Renda sobre as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e sobre fundos relacionados, como o Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagros).

Em um cenário de recursos limitados para financiar atividades do setor, e com um Plano Safra que oferece valores inferiores ao que as entidades do agro demandam — especialmente para o seguro rural, essencial em tempos de crises climáticas —, a taxação sobre esses investimentos reduziria sua atratividade, resultando em menor disponibilidade de recursos para o agronegócio.

Segurança jurídica

Mais uma vez, a questão orçamentária se torna central. Em um ano eleitoral, onde cortes de despesas são uma possibilidade distante, os recursos já estão comprometidos com despesas obrigatórias e benefícios sociais, deixando pouco ou nenhum espaço para investimentos em infraestrutura e inovação, que são fundamentais para o avanço da agricultura e da pecuária brasileiras.

No que se refere à segurança jurídica, o Congresso enfrentou e superou a maioria dos vetos relacionados ao licenciamento ambiental. No entanto, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) ajuizaram uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF), contestando o novo modelo de licenciamento.

Além disso, o aumento no número de recuperações judiciais no setor agrícola dificulta a concessão de crédito, elevando ainda mais seus custos. Às vésperas de eleições gerais, que resultarão na renovação de 2/3 do Senado Federal, é primordial o alinhamento do setor para garantir representatividade suficiente para que as políticas públicas acompanhem as necessidades dos produtores, garantindo um futuro cada vez mais sustentável e promissor, enfrentando os desafios e aproveitando as oportunidades.

Karina Tiezzi - BMJ Consultores

*Karina Tiezzi é gerente de Relações Governamentais da BMJ Consultores Associados e consultora em relações governamentais. Atuou como assessora legislativa na Câmara dos Deputados, participou da tramitação de proposições de destaque para o agronegócio, como a chamada MP do Agro e a Lei Geral do Licenciamento Ambiental


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