Entre novembro de 2022 e abril de 2025, mais de R$ 5,4 milhões em emendas parlamentares foram destinados pelo município de Cuiabá ao Instituto Brasil Central (IBRACE), volume que está no centro da Operação Gorjeta, investigação que levou ao afastamento do vereador Chico 2000. A distribuição dessas verbas, especialmente a origem das emendas parlamentares, é detalhada na decisão judicial que embasou a operação.
Dados extraídos do Portal da Transparência e consolidados em relatórios técnicos anexados ao inquérito mostram que o IBRACE não recebeu recursos apenas de Chico 2000 (PL).
Em 9 de setembro de 2025, o instituto foi contemplado com R$ 728.138,10, por meio da emenda parlamentar impositiva nº 150/2025, destinada pelo vereador Cezinha Nascimento, para a realização da 11ª Corrida e Caminhada pela Vida, formalizada pelo Termo de Fomento nº 08/2025/SMESP.
O mesmo vereador também indicou outra emenda, de igual valor (R$ 728.138,10), para a execução do projeto “Pedal pela Vida”, por meio da emenda impositiva nº 145/2025. No entanto, conforme registrado na decisão, não há informação sobre o pagamento dessa emenda nem confirmação da realização do evento, o que passou a integrar o conjunto de pontos observados pela investigação.
Também destinaram emendas ao Instituto investigado os vereadores Luiz Fernando, Dídimo Vovô, Kássio Coelho, Wilson Kero Kero e Lili Pinheiro. Veja valores no quadro abaixo:
💰 Emendas parlamentares repassadas ao IBRACE
| Autor da emenda | Valor repassado (R$) |
|---|---|
| Chico 2000 | R$ 3.550.000,00 |
| Chico 2000 (50%) e Didimo Vovô (50%) | R$ 200.000,00 |
| Dr. Luiz Fernando Amorim | R$ 350.000,00 |
| Kássio Coelho | R$ 400.000,00 |
| Wilson Kero Kero e Lilo Pinheiro | R$ 317.213,00 |
| Wilson Kero Kero | R$ 307.000,00 |
| Não especificado | R$ 365.574,00 |
| Total geral | R$ 5.489.787,00 |
Maior parte veio de um único parlamentar
Apesar da participação de outros vereadores, a Justiça chama atenção para a forte concentração de recursos oriundos das emendas de Chico 2000. No período de 22 de novembro de 2022 a 9 de abril de 2025, o IBRACE recebeu R$ 5.489.787,00 do Município de Cuiabá. Desse total, R$ 3.650.000,00 tiveram origem em emendas parlamentares impositivas apresentadas pelo próprio Chico 2000, o que corresponde a 66% de todo o montante transferido ao instituto em cerca de dois anos e cinco meses.
Para o juízo, o percentual elevado e a recorrência dos repasses justificam o aprofundamento das apurações sobre a destinação dos recursos.

Eventos esportivos e contratação recorrente
As investigações indicam que os valores oriundos das emendas parlamentares foram direcionados, sobretudo, para a realização de corridas de rua, como a 36ª Corrida do Senhor Bom Jesus de Cuiabá e a 6ª Corrida do Legislativo Cuiabano. Em ambos os casos, os eventos foram formalizados por Termos de Fomento entre o IBRACE e a Secretaria Municipal de Esportes.
A organização das provas ficou a cargo da empresa Sem Limite Esporte e Eventos Ltda (Chiroli Esportes), pertencente ao empresário João Nery Chiroli, também alvo da operação, o que reforçou a suspeita de um padrão repetido de contratação.
Mensagens reforçam vínculo direto
A decisão judicial também destaca conversas extraídas do WhatsApp do vereador Chico 2000, analisadas no Inquérito Policial nº 62/2025-DECCOR. As mensagens mostram diálogo frequente entre o parlamentar e João Nery Chiroli, entre fevereiro e abril de 2025, tratando diretamente da organização dos eventos financiados com recursos públicos.
Em uma das conversas, datada de 13 de fevereiro de 2025, Chico 2000 informa que o empresário o acompanharia em reuniões relacionadas às corridas, elemento que, para a Justiça, indica participação direta do vereador na condução dos projetos e na definição da empresa executora.
Operação Gorjeta
A Operação Gorjeta foi deflagrada pela Polícia Civil de Mato Grosso para apurar um suposto esquema de desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares destinadas a eventos esportivos em Cuiabá. A investigação é conduzida pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor) e teve como foco principal a relação entre agentes públicos, um instituto sem fins lucrativos e empresas privadas contratadas para executar os projetos.
Segundo a apuração, emendas impositivas foram direcionadas ao Instituto Brasil Central (IBRACE), que, conforme os indícios reunidos, teria atuado como intermediário formal para repassar a maior parte dos valores a empresas previamente escolhidas, especialmente a Sem Limite Esporte e Eventos (Chiroli Esportes). A Justiça apontou que, em alguns casos, até 95% dos recursos públicos eram transferidos logo após o crédito das emendas.

A decisão judicial que embasou a operação também menciona mensagens extraídas de celulares, relatórios de inteligência financeira e transferências suspeitas, que indicariam o retorno indireto de parte do dinheiro público a pessoas ligadas ao esquema. Com base nesses elementos, a Justiça determinou medidas cautelares, incluindo o afastamento do vereador Chico 2000 do mandato, além de buscas, bloqueio de valores e outras restrições.
No total, a operação cumpriu 75 ordens judiciais e segue em andamento, com análise detalhada de documentos, fluxos financeiros e comunicações apreendidas.
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