Flagrantes feitos pela equipe de reportagem da TV Centro América revelaram a venda de canetas emagrecedoras sem retenção de receita médica em Cuiabá. Mesmo sendo medicamentos de uso controlado e associados a riscos graves à saúde, incluindo 65 notificações de mortes no país, os produtos seguem sendo comercializados de forma irregular na capital.
Criadas inicialmente para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, as chamadas “canetas emagrecedoras” também passaram a ser indicadas para emagrecimento, mas continuam exigindo prescrição médica e acompanhamento profissional.

Uma vendedora que se identificou apenas como Caroline afirmou comercializar as canetas e orientou sobre a forma de aplicação, inclusive sugerindo diferentes quantidades e valores, além do envio de seringa para fracionamento da dose.
“Se você comprar de 2 e 1/2, duas de 2 meses, você vai aplicar uma vez na semana, uma vai dar para duas semanas. Agora, se você quiser aplicar cinco, aí eu mando cinco, aí você aplica de uma vez só. Aí eu te mando a seringa e você puxa, aí se você quiser no cinco ou no 2 e 1/2. Você me fale em quantas vezes que você quer passar e qual o valor que você quer”, afirmou.
Áudio 1 WhatsApp
Vendedora explica passo a passo de aplicação e sugere ajustes de dose como se estivesse prescrevendo.
Áudio 2 WhatsApp
Ela orienta frequência de uso e detalha como aplicar, assumindo papel de orientação médica.
Áudio 3 WhatsApp
No áudio, a vendedora ensina a aplicação e indica variações de dosagem.
Áudio 4 WhatsApp
Ela reforça instruções sobre como usar o medicamento e comenta ajustes de aplicação.
Áudio 5 WhatsApp
Ela fala sobre entrega por aplicativo, sem necessidade de contato físico ou retenção de receita.
Áudio 6 WhatsApp
Vendedora comenta possibilidade de parcelamento no cartão, mesmo tratando-se de medicamento controlado.
Outro vendedor, identificado como Itamar, chegou a dizer por telefone que não comercializava o produto sem receita médica. “A gente só revende caneta conforme a receita. Não tem como vender sem receita, até na farmácia eles pedem”, disse.
No entanto, posteriormente, por aplicativo de mensagens, ele ofereceu dois tipos de medicamento, informou preços, indicou forma de aplicação e confirmou disponibilidade para venda.
A secretária executiva Andrea de Fátima dos Santos conta que fez uso das canetas emagrecedoras, mas com orientação profissional e acompanhamento contínuo. Ao longo do tratamento, ela eliminou 26 quilos.
“Mas o tratamento não vem só assim, a caneta em si. Ela fez exames comigo antes, fez acompanhamento comigo já tem mais de 2 anos, então assim, não foi um milagre da noite para o dia. Mas hoje, graças a Deus, eu estou contente”, afirmou.
Andrea relata que seguiu rigorosamente as orientações médicas, inclusive quanto à dosagem e à evolução do tratamento.

“Ela (a doutora) falou assim, olha, eu vou te ensinar o passo a passo. São as quatro primeiras semanas. Nas quatro primeiras semanas, você vai usar tantos cliques. No início, eu usei 16 cliques. Uma aplicação por semana. Na quinta semana, ela passou 38 cliques e aí depois começou uma dosagem maior”, relatou.
Segundo a endocrinologista Claudia Mariane Santana, o uso exige avaliação criteriosa. “Falando propriamente das canetas emagrecedoras, que foram criadas inicialmente para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2, posteriormente foram aprovadas para emagrecimento, mas são medicamentos. Como todo medicamento, deve ser feito com orientação, com a dose correta, intervalo de tempo, com a posologia, a maneira que você vai usar”, explicou.
Ela alerta que o uso sem acompanhamento pode provocar deficiência de vitaminas, fraqueza e até quadros graves. “Eu acho que é um risco imensurável, porque a gente não sabe o que tem ali dentro. Podem estar diluídos ou podem estar misturados com outras substâncias. Inclusive, a gente já viu casos de misturado com insulina, que levou à hipoglicemia grave e, em última instância, pode levar a óbito”, declarou.
O conselheiro regional de farmácia Wagner Coelho explica que a comercialização sem retenção de receita é crime. “É um crime que as pessoas envolvidas poderão responder, inclusive farmacêutico, no conselho geral de farmácia, o proprietário, na justiça. Porque essa questão do produto ser de retenção, de receita, obrigatoriedade à retenção, é para reduzir os danos que podem ocorrer se pessoas inadvertidamente ou vizinho passar um produto para outro, sem que ele passe por uma avaliação médica”, pontuou.

Procurada, a Delegacia de Defesa do Consumidor informou que as denúncias são repassadas à Polícia Federal, que, por outro lado, afirmou que até o momento não houve registro de denúncias.
Já a Secretaria de Estado de Saúde informou que as situações envolvendo comercialização ou aplicação realizada por pessoas físicas, fora de estabelecimentos regularizados, demandam a atuação de órgãos de segurança pública.
Por outro lado, a Vigilância Sanitária do município de Cuiabá informou que a comercialização regular do medicamento tirzepatida foi autorizada em maio do ano passado. No ano passado, foram registradas duas denúncias e, neste ano, até o momento, quatro ocorrências, demonstrando um aumento gradual compatível com a maior procura e divulgação do medicamento.
A Vigilância Sanitária reforça que apenas medicamentos com registro na Anvisa passam por avaliação de qualidade, segurança e eficácia. Produtos sem registro, especialmente os importados de forma irregular, não possuem controle sanitário e podem representar risco à saúde.
Por fim, o órgão orienta a população a adquirir medicamentos somente em farmácias e drogarias regularizadas, a verificar o registro na Anvisa e a evitar a compra por meio de redes sociais ou de vendedores informais.
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