O México se tornou o maior emissor de dívida entre os países em desenvolvimento em um ano notável para as vendas de títulos emergentes, à medida que a nação intensifica os esforços para socorrer a endividada estatal petrolífera Pemex.
O país captou pouco mais de US$ 41 bilhões com títulos soberanos em moeda forte até agora neste ano — um recorde para o México e mais que o dobro do montante emitido pela Arábia Saudita, o segundo maior emissor, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.
Embora não tenha ficado claro quanto desse valor foi para a Pemex, os documentos das duas operações mais recentes indicavam que os fundos seriam destinados a uma “contribuição de capital” para a empresa, que está afundada em uma dívida de aproximadamente US$ 100 bilhões, e tem sua produção de petróleo na mínima em 40 anos. Analistas, operadores e executivos de bancos de investimento afirmam que uma parcela significativa da emissão de dívida do ano provavelmente foi direcionada para apoiar a empresa.
A ajuda governamental desencadeou um rali nos títulos da Pemex, e fez com que o prêmio exigido pelos investidores para deter títulos da empresa em relação à dívida soberana despencasse. Ao mesmo tempo, o aumento da oferta de dívida pode pesar sobre a nota de crédito soberano do México. A Moody’s Ratings já mantém uma perspectiva negativa para o país.
“O México tem sido um grande emissor, particularmente por conta das transações relacionadas com a Pemex”, disse Aaron Gifford, chefe de pesquisa de dívida soberana global da T. Rowe Price. “Espero que esse tipo de emissão continue no futuro, embora no ano que vem provavelmente seja um pouco menor, visto que este ano foi o grande resgate inicial.”
As vendas de títulos soberanos e corporativos emergentes já ultrapassaram US$ 600 bilhões no acumulado do ano, e caminham num ritmo superado apenas em 2020 e 2021. Um fator-chave que impulsiona o aumento da atividade é a demanda de investidores globais em busca de rendimentos mais atrativos nos países em desenvolvimento. Na América Latina, o volume já quebrou o recorde anterior — impulsionado em grande parte pelo México.
Nesta semana, a República Dominicana, o Cazaquistão e o Uruguai acessaram os mercados internacionais de dívida — e se juntaram à onda de vendas.
As mais recentes captações do México marcam uma mudança no governo da presidente Claudia Sheinbaum, já que a administração anterior se inclinava a aportes menores e pontuais à Pemex, disseram analistas.
“O governo está sendo mais pró-ativo”, disse Nathalie Marshik, diretora-gerente do HSBC em Nova York. “Também estamos em um ambiente onde ainda há muita liquidez, então o México está aproveitando isso.”
O Ministério das Finanças do México não respondeu a um pedido de comentário.
A Pemex, controlada pelo governo mexicano, está a caminho de registrar seu maior déficit fiscal com o governo em seus 87 anos de história, estimado em US$ 31 bilhões, resultado de receitas em queda e de um resgate massivo.
Os títulos da empresa se valorizaram graças ao apoio do governo — que incluiu, em julho, uma venda de US$ 12 bilhões das chamadas P-caps — um tipo de instrumento que permite aos emissores tomar dinheiro emprestado sem registrá-lo como dívida em seus balanços e, potencialmente, colocando em risco sua nota de crédito.
Ainda assim, a implementação do plano de negócios da Pemex por Sheinbaum, em agosto, não conseguiu aliviar as preocupações com a produção e outros problemas operacionais, incluindo campos de petróleo antigos e refinarias deficitárias — razões que podem levar o governo mexicano a retornar ao mercado de dívida em breve.
Embora a operação com as P-Caps tenha sido desenhada para aliviar a pressão sobre a nota de crédito do México, o aumento do endividamento do país — alimentado pela Pemex — não passou despercebido, especialmente porque o governo já destinou outros US$ 14 bilhões no orçamento do próximo ano para cobrir as obrigações financeiras da estatal.
Tanto a S&P Global Ratings quanto a Fitch Ratings mantêm perspectiva estável para o México, com esta última afirmando em agosto que a emissão de P-Caps foi “amplamente neutra” para o soberano. A Moody’s Ratings, porém, tem uma perspectiva negativa. A agência deve tomar uma decisão sobre a nota de crédito no primeiro semestre de 2026.
Por enquanto, o mercado parece encarar esse risco com tranquilidade: o prêmio extra exigido pelos investidores para carregar títulos mexicanos em dólar, em relação aos Treasuries dos EUA, caiu quase 100 pontos-base neste ano, segundo um índice do J.P. Morgan. O movimento acompanha a compressão mais ampla dos spreads entre créditos de mercados emergentes.
E poucos esperam uma repetição da onda de vendas deste ano tão cedo — embora o ritmo das futuras captações do México deva permanecer forte.
O México superou as expectativas no apoio à Pemex neste ano, disse o estrategista do Morgan Stanley, Simon Waever. “Olhando para 2026, a oferta soberana provavelmente será maior do que a média histórica, mas menor que a de 2025.”
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