Sinop, 23/01/2026 23:58

Venezuela: sem tropas no chão, não há controle, há negociação

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

A retirada de Nicolás Maduro do poder, após uma ação direta dos Estados Unidos, não pode ser interpretada como o desfecho da crise venezuelana. Ao contrário: trata-se apenas do início de um cenário complexo, instável e repleto de interrogações. A questão central não é apenas como Maduro caiu, mas quem permaneceu no comando depois disso.

Derrubar um líder é mais fácil do que controlar um sistema

A experiência internacional mostra que derrubar um líder é sempre mais simples do que desmontar o sistema de poder que o sustenta. E, no caso da Venezuela, esse sistema foi moldado ao longo de décadas para funcionar de forma profundamente militarizada, centralizada e dependente de interesses econômicos estratégicos. Sem tropas no chão, não existe controle territorial efetivo. O que existe é negociação.

Os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, deixaram claro desde o início que não pretendiam repetir o modelo de ocupações militares prolongadas, como no Iraque ou no Afeganistão. Manter tropas em solo venezuelano significaria risco de guerra civil, mortes de civis, instabilidade regional e alto custo político interno. A opção por uma ação rápida, cirúrgica e sem ocupação indica que o objetivo era remover o símbolo do regime, não administrar o país à força.

A hipótese da negociação interna

É nesse ponto que surge uma hipótese politicamente consistente, ainda que não comprovada: a de que a retirada de Maduro pode ter sido facilitada por setores internos do próprio poder venezuelano, interessados em preservar o sistema e garantir sua sobrevivência. Não se trata de afirmar que houve um acordo formal, mas de observar os sinais deixados pela sequência dos acontecimentos.

O primeiro deles é a continuidade do núcleo de poder. Em vez de uma transição conduzida pela oposição, o comando do país foi rapidamente reorganizado dentro da própria estrutura chavista. A ascensão da vice-presidente Delcy Rodríguez não representa ruptura, mas rearranjo. E esse detalhe é central para entender o que está em jogo.

O petróleo como eixo do poder

Delcy Rodríguez não é apenas uma figura política de transição. Ela é responsável direta pela área de petróleo da Venezuela, o setor mais estratégico do país e a principal moeda de negociação internacional. Ao mesmo tempo, seu irmão, Jorge Rodríguez, preside o Congresso. Executivo, Legislativo e energia, o tripé do poder real, permanecem concentrados nas mãos do mesmo grupo político. Isso reforça a leitura de continuidade organizada, não de mudança de regime.

Outro sinal relevante foi a postura dos Estados Unidos em relação à oposição. Quando questionado sobre a participação de María Corina Machado, Trump descartou publicamente sua condução no processo. A mensagem implícita foi clara: a transição não seria liderada pela oposição tradicional, mas por atores que já estavam inseridos no núcleo do poder estatal.

Continuidade política, pragmatismo estratégico

Do ponto de vista estratégico, essa escolha faz sentido. Ao remover Maduro, os Estados Unidos atingem um objetivo simbólico importante. Ao evitar uma ocupação militar, reduzem riscos e custos. E, ao lidar com um governo de continuidade, preservam canais para negociar temas sensíveis como sanções, segurança regional e, principalmente, petróleo.

No campo energético, a Venezuela segue sendo um ativo estratégico de enorme valor. O país possui milhares de poços degradados por falta de investimento, tecnologia e manutenção. Qualquer retomada relevante da produção depende de capital estrangeiro, know-how técnico e estabilidade mínima. Um governo de transição controlado por quadros já conhecidos oferece exatamente isso: previsibilidade para negociar, sem desmontar toda a engrenagem política existente.

Há ainda o discurso da cooperação no combate ao narcotráfico, frequentemente usado como justificativa política. Mas aqui reside um paradoxo evidente: as estruturas que hoje prometem colaboração são, em muitos casos, as mesmas que historicamente conviveram com essas redes. O risco é transformar a “cooperação” em narrativa diplomática, sem mudanças estruturais profundas.

Transição sem transição

Nada disso garante estabilidade ou democratização. Ao contrário. A permanência do mesmo grupo no poder, ainda que sem Maduro, pode gerar disputas internas, repressão seletiva e frustração popular. A Venezuela corre o risco de viver uma transição sem transição, muda o rosto, preserva-se o sistema.

A lição é simples e dura: sem tropas no chão, não há controle; há negociação. E, em regimes fechados, negociações costumam priorizar a sobrevivência do poder estabelecido, não a reconstrução democrática.

A queda de Maduro pode ter sido apenas o primeiro movimento de um tabuleiro muito maior, onde o verdadeiro jogo é decidir quem manda, quem permanece e a que preço.

Miguel Daoud

*Miguel Daoud é comentarista de Economia e Política do Canal Rural


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